
Desgastado pela revelação de um vídeo íntimo gravado em ligação de WhatsApp por uma mulher que conheceu em 2020, Pedro Paulo foi rifado. Nos últimos meses, a preferência de Paes por ele chegou a ser considerada quase inegociável — o plano “A, B e C”. Na semana passada, o próprio deputado disse a Paes que havia desistido da indicação, mas o movimento foi encarado mais como um teste para a repercussão do vídeo do que uma desistência real.
A confirmação encerrou a principal novela do período pré-eleitoral no Rio. Paes sempre deu a entender que formaria uma chapa puro-sangue do PSD, mas partidos aliados, como o PT, reivindicaram a vaga até perceberem que o esforço era em vão. O prefeito não abriu mão de colocar um aliado de máxima confiança porque tende a deixar o novo mandato no meio, caso reeleito, para disputar o governo do estado em 2026. Com isso, Cavaliere assumiria a prefeitura. O jovem parlamentar era chefe da Casa Civil até junho deste ano.
Na prática, a decisão é um baque na dinâmica entre Paes e Pedro Paulo, que caminham juntos há cerca de três décadas. E representa outro revés de cunho eleitoral para o deputado, que foi derrotado na disputa para prefeito em 2016 após a candidatura ser uma aposta de Paes — contra conselhos de vários aliados. No início do ano, outro momento em que o deputado teve expectativas frustradas foi em relação à nomeação para o Ministério do Turismo.
Além do caso do vídeo íntimo, o principal parceiro de Paes na vida pública também despertava preocupação na campanha por causa de um episódio do passado: a acusação de ter batido na ex-mulher — que, apesar de arquivada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) com parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR), permaneceu viva enquanto fato político. Foi justamente isso que o prejudicou na campanha de 2016, quando sequer chegou ao segundo turno da eleição municipal.
Prós e contras
Nas últimas semanas, interlocutores vinham observando um Eduardo Paes imerso no processo decisório, tido por alguns como o mais difícil de toda a carreira dele. Equilibrar na balança o apreço singular que nutre por Pedro Paulo, visto como o mais preparado para a linha sucessória da prefeitura, e o possível desgaste que o deputado levaria à campanha foi algo que deixou o prefeito ansioso e exigiu intensa reflexão.
Alguns sinais nos últimos dias, desde a revelação da história do vídeo íntimo, fizeram aliados se dividirem sobre seus sentidos. Houve quem lesse a efusiva declaração de Paes sobre a importância de Pedro Paulo no caso do estádio do Flamengo como um recado de que ele tinha voltado a ser o favorito para a vice. Outros viram nisso uma forma de intensificar uma espécie de “saída honrosa” para o deputado.
Cavaliere passou à frente numa fila sucessória que Pedro Paulo “congelava” desde 2016. Outras opções do próprio PSD consideradas nos últimos meses foram o também deputado estadual Guilherme Schleder e o presidente da Câmara Municipal, Carlo Caiado. Para alguns aliados que acompanharam as costuras, Paes falhou ao não deixar à disposição os secretários de Governo, Felipe Santa Cruz, e de Saúde, Daniel Soranz, que ofereceriam a ele perfis diferentes — e mais experientes que Cavaliere — caso Pedro Paulo de fato fosse rifado. Os dois não foram exonerados dos cargos no prazo exigido pela Justiça Eleitoral.
Paes se pronunciou na quinta à noite sobre a escolha. Em nota, disse que a atitude de Pedro Paulo de pedir para não ser o vice — e “colocar a família em primeiro lugar” — fez com que crescesse “ainda mais a minha admiração e o meu respeito por ele”.
“O deputado estadual Eduardo Cavaliere, eleito pela cidade do Rio de Janeiro, é um jovem político que, desde cedo, demonstra seu comprometimento com o Rio”, afirmou sobre o escolhido.
Satisfação a Lula
Mesmo deixando nas entrelinhas há meses que não escolheria um petista, Paes prometeu a Lula que não tomaria uma decisão sem conversar com ele. Na manhã desta quinta, o prefeito embarcou para Brasília e contou ao presidente antes mesmo de importantes aliados no Rio terem a certeza de quem seria o escolhido.
Pedro Paulo, inclusive, enfrentava resistências no PT por ter votado a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016. O voto chegou a motivar um pedido de desculpas durante um almoço em 2021, quando Lula começava a construir a candidatura presidencial do ano seguinte.
Os reveses de Pedro Paulo
Eleição de 2016: Mesmo com a revelação do processo de violência doméstica contra a ex-mulher, arquivado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Pedro Paulo seguiu como o escolhido de Eduardo Paes para sucedê-lo na prefeitura. O deputado ficou em terceiro colocado na disputa e não foi sequer ao segundo turno, depois de o episódio ter sido explorado por adversários durante toda a campanha.
Ministério do Turismo: Na transição entre os governos de Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o deputado federal foi cotado para assumir o Ministério do Turismo. A nomeação chegou a ser considerada avançada, mas ruiu. Relatos da época citavam a suposta influência da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, para vetar a escolha do aliado de Paes, por causa do episódio da ex-mulher.
Vice em 2024: O cenário este ano parecia perfeito para Paes emplacar o maior aliado na vice e, consequentemente, abrir a Pedro Paulo o caminho sucessório. No entanto, a revelação de um vídeo íntimo dele gravado em uma ligação de WhatsApp por uma mulher trouxe novas preocupações ao prefeito. O caso, somado ao da ex-mulher, passou a ser visto como um possível desgaste para a tentativa de reeleição.
Fonte: O GLOBO



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