Disfarçada de briga familiar, a gravação mobiliza símbolos evangélicos e reafirma a ex-primeira-dama como liderança com base própria no bolsonarismo

Porto Velho, RO - O vídeo publicado por Michelle Bolsonaro nas redes sociais, em 24 de junho, não é apenas uma briga de família em praça pública, como algumas análises insistem em expressar. É, também, uma peça bem elaborada de comunicação política com todos os ingredientes de um fenômeno ainda pouco nomeado no Brasil: o populismo religioso digital.

O populismo religioso combina os elementos clássicos do populismo (o “povo” contra as “elites”, um líder carismático, um inimigo a derrotar) com base em matriz religiosa. No ambiente digital, essa prática ganha força multiplicada pela viralização, pela mobilização emocional permanente e pela construção simultânea de comunidades morais e de lealdade política.

É uma dinâmica próxima à descrita pelo relatório O Partido Digital Bolsonarista, do CCI/Cebrap em parceria com o Instituto Democracia em Xeque. O estudo sustenta que o bolsonarismo opera para além da estrutura partidária convencional, como um ecossistema digital capaz de organizar mobilização, códigos morais e cadeias de lealdade em torno de lideranças e influenciadores.

A primeira coisa que chama atenção no vídeo é que ele não é uma gravação improvisada. É uma produção cuidadosa, com cenário deliberadamente composto. E é nele que começa a comunicação religiosa com o público-alvo.

Uma reportagem do Coletivo Bereia identificou ali uma sequência de símbolos dirigida aos evangélicos. A mão dourada remete ao sinal de “eu te amo” em Libras, língua que Michelle usou ao traduzir o discurso de posse de Jair Bolsonaro, em 2019. A referência mobiliza afetos e remete ao trabalho de inclusão de pessoas surdas realizado por igrejas evangélicas.

A estrela de Davi dialoga com o repertório do sionismo cristão, corrente que associa o atual Estado de Israel ao Israel bíblico. Já a camiseta com os termos ligados ao “fruto do Espírito” — amor, alegria, paz, mansidão e domínio próprio, em referência a Gálatas 5 — reivindica uma autoridade moral. Diz, sem palavras, que o balanço que Michelle apresenta sobre sua atuação no partido não são também fruto de uma missão espiritual.

O plano verbal coroa a peça. Michelle recorre sistematicamente à identidade evangélica: fala de uma “missão que só Deus tira”, afirma que adversários terão de “prestar contas ao meu Deus”, diz que “libera perdão” e recorre à frase “meu Deus é o caminho, a verdade e a vida”. Não se trata apenas de religião a serviço da política, mas de ‘religião como política’, como bem formulou o pesquisador Ronaldo Almeida, da Unicamp e do Cebrap.

Esse é um dos mecanismos centrais do populismo religioso digital: a sacralização do conflito político. A divergência de Michelle Bolsonaro com a aproximação do PL do Ceará a Ciro Gomes e sua cobrança por maior consideração às suas indicações de mulheres deixam de aparecer como uma disputa partidária comum. Tornam-se uma questão de coerência moral.

A palavra “coerência”, repetida diversas vezes, organiza o discurso. O desacordo é apresentado como fidelidade a valores; o pragmatismo, como desvio; a oposição, como traição. Ciro Gomes aparece, nessa narrativa, como um inimigo político associado à inelegibilidade de Jair Bolsonaro. O PT e os que teriam abandonado ou desrespeitado o casal, adversários a serem derrotados.

Ativa-se, em versão religiosa, o “nós” (o povo fiel, o casal perseguido, os seguidores leais, “pessoas de bem”) contra o “eles” (o PT e os que traíram o casal). A lógica amigo-inimigo que o pensador Ernesto Laclau identificou como estruturante do populismo ganha aqui legitimação religiosa.

Há ainda uma dimensão decisiva: o sofrimento como testemunho. Michelle relata desrespeito e isolamento na relação com os enteados, especialmente Flávio Bolsonaro. No imaginário evangélico, a ‘dor do justo’ pode ser convertida em prova de autenticidade, perseverança e fé. O conflito familiar, portanto, não aparece apenas como uma fratura privada, mas como experiência moral e política.

O vídeo é uma peça de construção da liderança carismática de Michelle no partido bolsonarista digital. Foi projetado para a fractalidade, conceito da antropóloga Letícia Cesarino para o processo pelo qual seguidores internalizam a lógica do líder e a reproduzem espontaneamente em suas redes. E o monitoramento digital mostra que funcionou: repercussão imediata, enorme volume de interações. A especulação sobre os objetos do cenário (o “símbolo satânico”, o “rosário”) também ajudou a alimentar o debate e manter o vídeo em circulação.

Com o ex-presidente condenado e inelegível, o filho Flávio avança como pré-candidato, com a bênção do pai, envolto em controvérsias, mas a ex-primeira dama é quem mantém base própria conquistada entre mulheres, especialmente as evangélicas. Ela foi alçada a esta posição pelo próprio marido (palavra proferida quase 40 vezes no vídeo), quando, com o risco de perder a reeleição identificado em 2022, inseriu a esposa na campanha com aparições públicas mais frequentes e com voz. Dali em diante, ela consolidou capital político e se tornou presidente do PL Mulher.

Uma pesquisa importante do Instituto de Estudos da Religião, o ISER, ilumina formas de identificação das evangélicas com a ex-primeira dama. Elas também são o suporte de “maridos complicados” e encontram na fé âncora e escudo. Ainda admiram a ‘sinceridade’ que marca as expressões públicas da líder política, que não esconde os problemas vividos na família.

O vídeo de 24 de junho é um movimento nesse tabuleiro. Michelle afirma presença, reivindica voz, expõe divergências e demarca valores. Ao dizer que não trocará princípios por “pragmatismo político oportunista”, ela não fala apenas de uma disputa interna do PL, mas constrói um lugar para si no futuro do bolsonarismo.

No populismo religioso digital, a liderança carismática se constrói pela combinação entre intimidade — o contato direto com o público, sem intermediários —, identidade religiosa explicitada e sofrimento convertido em prova de autenticidade. Também se delineiam os eixos que organizam essa narrativa: a formação de uma comunidade moral e a ideia de uma missão de salvação diante de inimigos a serem derrotados.

Michelle Bolsonaro maneja essa gramática política com desenvoltura. O vídeo de 24 de junho não é apenas um desabafo ou uma peça de disputa interna: é um documento do bolsonarismo encarnado por uma mulher e operado, nas redes, como fenômeno de comunicação religiosa e política.

Fonte:Carta Capital